Adaptado de materia de O ESTADO DE S.PAULO Quarta-feira, 13 de outubro de 1999

AndMyEstd.jpg (11425 bytes)EmiIiano Ribeiro faz estudo sobre a impunidade

Condenado à Liberdade é o título do novo filme do diretor de As Meninas

Um policial brasileiro sobre a impunidade. Assim o diretor Emiliano Ribeiro define seu novo longa-metragem, Condenado à Liberdade, que está em fase de finalização e deverá estar pronto no primeiro semestre do ano 2000. A história, que se desenvolve nos cânones de um policial clássico, parte de um argumento (premiado no Festival de Havana em 1990) da escritora Claudia Furiati. 0 roteiro é assinado por Claudia e também por Marcos Gonzales e o próprio Emiliano. No elenco, estão grandes atores corno Nathalia Timberg, Mylla Christie, Othon Bastos, Cassia Kiss, Anselmo Vasconcelos, André Gonçalves, Antônio Pompeo e Odilon Wagner. Tudo, do começo ao fim, foi rodado em Brasília.

Por que a opção pelo Planalto Central? "Simples: todo o enredo se desenvolve em torno de um garoto que é inocentado simplesmente por ser de família politicamente influente. Então tínhamos de estar no centro do poder", diz Ribeiro. Essa denuncia da impunidade, que onera muito o tal do "custo Brasil" em termos morais, vem embalada numa trama que pretende deixar o espectador bem ligado: Mauro (Othon Bastos) e Beatriz (Cassia Kiss), um casal da alta burguesia local, são encontrados mortos trancados em seu quarto. Tudo leva a crer que se trata de homicídio seguido de suicídio. Mas o laudo do legista indica que ambos foram assassinados. As suspeitas recaem sobre o filho do casal, Maurinho (André Gonçalves), mas este acaba inocentado por influencia do tio, Carlos (Odilon Wagner), político influente que acaba de se reeleger.

Alem do elenco brasileiro, Emiliano Ribeiro escalou a atriz espanhola Isabel Ampudia para o papel de urna repórter internacional. A jornalista Inês vem ao Pais a convite de urna ONG preservacionista para investigar o contrabando de mogno, mas acaba tendo seu faro de repórter atraido pelo duplo homicídio. A primeira opção de Emiliano Ribeiro para este papel era a atriz Ana Torrent, a garotinha do antológico Cria Cuervos, de Carlos Saura. No entanto, Ana foi convidada para urna serie da TV italiana e houve incompatibilidade de agendas. A agente de Ana na Espanha sugeriu Isabel para seu lugar e a substituição funcionou muito bem, segundo o diretor. "Conheci Isabel apenas no aeroporto, onde fui buscá-la para as filmagens, mas no fim deu tudo certo", afirma.

Há ainda, na história de Condenado a Liberdade, uma avó dominadora, excepcionalmente interpretada por Nathalia Timberg. Uma figura muito forte, segundo Ribeiro, "uma avó que corrompe os netos", o que permite ao cineasta sugerir que as estruturas de dominação de uma sociedade começam dentro de casa, em volta da mesa da família. "Procuro mostrar que esta é a mais perigosa das tiranias, porque muito prazerosa, uma prisão com celas confortáveis", analisa o diretor.

Emiliano Ribeiro, diretor conhecido por sua premiada adaptação de As Meninas, romance intimista-politico de Lygia Fagundes Telles, diz que Condenado à Liberdade "é um policial não-clássico". Com isso quer dizer que conta uma boa história, tensa e frenética, mas, ao mesmo tempo, procura, com ela, fazer uma radiografia da sociedade em que ocorre. Lembra-se de exemplares da melhor estirpe do gênero como 0 Segredo das Jóias, de John Huston. Nele, Huston traça, a partir de um assalto frustrado, um painel bem forte da competitiva sociedade americana. Não por acaso o filme, em sua versão original se chama Asphalt Jungle, a selva do asfalto, colocando a aspereza da vida da cidade contra a (suposta) existência idílica do campo, de onde vem um dos personagens centrais, vivido por Sterling Hayden.

Em Condenado à Liberdade, essa "radiografia social" aparece em diversos momentos. Num deles, destacado pelo diretor como cena "emblemática", há dois policiais (Anselmo Vasconcellos e Antônio Pompeo) tomando caipirinha e falando sobre a lei do Brasil. "Eles percebem claramente que estão a serviço dos poderosos e que os únicos a quem se aplica a justiça, neste país, são os pobres", diz, no que já chega a ser um triste lugar-comum brasileiro.

Quem seguir o roteiro do filme terá a sensação de que já conhece a história de algum lugar. De fato, há em Condenado à Liberdade ingredientes de famosos casos policiais brasileiros, com as conclusões dúbias da polícia, a batalha dos laudos dos legistas, a prisão de falsos suspeitos, etc. "Costumo dizer que o meu é um filme de ficção, baseado em fatos reais", diz Ribeiro. Segundo o diretor, não há um único fato no filme que não possa ser reencontrado, em forma de ficção, na realidade nacional. Mas o filme não abre mão de um final de policial clássico, com a revelação (surpreendente) do verdadeiro culpado.